Microfísica do poder

19 mar

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A obra de Michel Foucault é central para desenvolver meu projeto de pesquisa sobre representação feminina e poder político na mídia. Abaixo, publico o resumo que fiz sobre Microfísica do poder. Está bem básico, foi mesmo só para me situar dentro da obra. Recomendo a leitura (do livro. e do resumo também, claro!).

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Microfísica do Poder

Michel Foucault

O conceito de poder é central dentro da obra de Michel Foucault. Para o autor, o poder não é algo que se possa possuir. Portanto, não existe em nenhuma sociedade divisão entre os que têm e os que não têm poder. Pode-se dizer que poder se exerce ou se pratica. O poder, segundo Foucault, não existe. O que há são relações, práticas de poder.

O poder circula. Para Foucault, ao contrário das teses althusserianas – segundo as quais todo poder emana do Estado para os Aparelhos Ideológicos – há as chamadas micropráticas do poder. “De modo geral, penso que é preciso ver como as grandes estratégias de poder se incrustam, encontram suas condições de exercício em micro-relações de poder. Mas sempre há também movimentos de retorno, que fazem com que estratégias que coordenam as relações de poder produzam efeitos novos e avancem sobre domínios que, até o momento, não estavam concernidos.”

O tema, no seu desenvolvimento, é retirado do exclusivo campo político para ser instalado no cotidiano. Sem deixar de reconhecer que os interesses hegemônicos de diferentes grupos sociais se encontram por trás de situações de poder generalizadas, considera-se que não é a única manifestação do poder propriamente dito.

O poder é, em essência, uma personagem que atravessa todos os cenários da vida humana. “Quero dizer o seguinte: a idéia de que existe, em um determinado lugar, ou emanando de um determinado ponto, algo que é um poder, me parece baseada em uma análise de enganosa e que, em todo caso, não dá conta de um número considerável de fenômenos. Na realidade, o poder é um feixe de relações mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos coordenado. (…) Mas se o poder na realidade é um feixe aberto, mais ou menos coordenado (e sem dúvida mal coordenado) de relações, então o único problema é munir-se de princípios de análise que permitam uma analítica das relações do poder.”

Sua natureza final não pode ser apreendida senão ali onde sua intenção está totalmente investida: no interior de práticas reais e efetivas e na relação direta com seu campo de aplicação. Resulta lógico então não tomar o nível macro como ponto de partida para sua análise, sem a multiplicidade de atos que diariamente são protagonizados pelo indivíduo. Não é algo que se precipita sobre o indivíduo e que se encontra institucionalizado nas formações sociais. Não importa a legitimidade do mesmo se emana dos interesses do grupo hegemônico ou se é produto da vontade da maioria.

A idéia é que o poder se gera e materializa em uma gama extensa de relações pessoais desde as quais se leva a constituir estruturas impessoais. Se ao analisar o discurso existem normas que regem nossa percepção, devem existir, por sua vez, mecanismos que possibilitem que se estruturem e se reproduzam.

Não pode-se deixar de reconhecer a presença de pelo menos dois grandes planos em que se agrupam as diferentes manifestações de poder tomando como critério a extensão das mesmas. Uma estaria constituída pelas relações interpessoais, que não alcançam a totalidade de integrantes de um grupo e outra está caracterizada por formas institucionalizadas que operam como espaços fechados. Nesses casos, já não é poder de um indivíduo sobre outro. mas de um grupo sobre outro, com as características que seus integrantes queiram ou não, ficam presas no seu exercício. Os dois planos têm dinâmicas diferentes e geram formas de perpetuação e defesa diferentes.

Foucault parte do princípio de que existem duas esferas em que se consolidam as práticas, cada uma delas têm seus próprios mecanismos de legitimação, atuam como “centros” de poder e elaboram seu discurso e sua legitimidade.

Uma das ditas esferas está constituída pela ciência. A outra, pelo contrário, está formada por todos os demais elementos que podem ser definidos como integrantes da cultura. O ideológico, as diferenciações de gênero, as práticas discriminatórias, as normas e os critérios de normalidade estão dentro da segunda esfera. Tanto uma quanto a outra com uma referência notória a um tempo e espaço determinado.

Utilizado a genealogia do sistema, Foucault chega à conclusão de que a instauração da sociedade moderna supôs uma transformação na consagração de novos instrumentos pelos quais pode-se canalizar o poder. De forma paralela se construiu um conjunto extenso de discursos que conferiram força e capacidade de expandir-se a essas novas formas de poder. Estas já não se baseia, como no passado, na força e sua legitimação religiosa. Dado que como afirma o homem, em sua atual dimensão é uma criação recente, o poder deve materializar-se por meio de diferentes formas de disciplina. É necessário que passe a integrar parte do próprio ser de cada indivíduo. O dominado deve considerar natural ser subjugado. O poder produz o real. Por possuir essa eficácia produtiva, o poder volta-se para o corpo do indivíduo, não com a intenção de reprimi-lo, mas de adestrá-lo. No entanto, todo poder pressupõe resistência. O poder não está em uma pista de mão única.

Para alcançar essa meta deve-se estruturar uma retícula de poderes entrecruzados que vão, no seu caminho, conformando os indivíduos. O poder não tem uma única fonte nem uma única manifestação. Tem, pelo contrário, uma extensa gama de formas. Quando um grupo social é capaz de apoderar-se dos mecanismos que regulam determinada manifestação a põe a seu serviço e elabora uma estrutura que se aplica a potenciais dominados. Se cria, assim, um discurso que se apresenta como “natural” e procura bloquear as possibilidades de aparição de outros discursos que tenham capacidade questionadora. Essa necessidade de se contar com um discurso de respaldo, com uma determinada forma de verdade, leva necessariamente a estabelecer uma relação entre poder e saber.

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32 Respostas para “Microfísica do poder”

  1. Maria Elisa Guimaraes abril 16, 2007 às 6:58 pm #

    Tanto tempo depois da sua morte 1986 (não?) e cada vez mais se confirma o fato e a necessidade de um estudo sério sobre cada tema dentro do conceito central na/da obra do Foucault.
    Nunca se viveu tanto numa época em que deixou de ser história e transformou-se em vivência pessoal, as práticas discursivas de poder.
    Eu vou sim, acompanhar seu blog e desde já parabéns.
    Abraço
    Meg

  2. Alexandre Vitorino janeiro 25, 2008 às 2:48 pm #

    Muito bom;

  3. RODRIGO março 25, 2008 às 6:36 pm #

    FOLCOULT

  4. Ana maio 18, 2008 às 6:10 pm #

    Alguem poderia me ajudar na interpretação do Capitulo “Genealogia e Poder”, do livro Microfísica do Poder?

    • paulo tico junho 21, 2011 às 1:01 pm #

      ana, se quiseres podemos estudar juntos. o crescimento das pessoas se da atraves do relacionamento interpessoal. na troca de conhecimentos. bjs

  5. marta fernandes maio 31, 2008 às 12:01 am #

    maravilhoso, seu blog, coube direitinho no que precisava para trabalho sobre foucault.parabéns.

  6. Gerson Nascimento outubro 29, 2008 às 1:01 pm #

    Sou estudante de Jornalismo,já mais eu imaginava de mim deparar com tamanho poder de Ficoucault, mostrando através de suas téorias que o PODER não é unico,é simplesmente relações de poderes.Um abraço

    • Loreslayne Cleydemarrie Kennedy de la Castro setembro 9, 2011 às 4:39 pm #

      Nossa, estudante de jornalismo? Boa sorte, escrevendo desse jeito…

  7. Jésus de Lisboa Gomes novembro 27, 2008 às 1:16 pm #

    Gostei muito do seu comentário sobre o livro Microfísica do Poder. Acabei de ler o livro. Sou doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, Funcionário Público e Professor Universitário. Leciono no curso de Administração da FECAP. As empresas são um lugar privilegiado para as relações de micropoderes – ou mesmo micro-ditaduras. Por isso, no próximo semestre, vou incluir algo de Foucault no meu curso. Recomendarei aos meus alunos que leiam a sua resenha. Parabéns.
    Jésus.

  8. Maria Aparecida da Silva novembro 30, 2008 às 11:16 pm #

    JAQUES LACAN DESCOBRIU QUE SOMOS EFEITOS DE LINGUAGEM E QUE CADA UM TEM A SUA SINGULARIDADE. E MAIS, NÃO EXISTE O DIÁLOGO, SOMENTE O MONÓLOGO. POR ISSO, QUANDO FALO DO OUTRO POSSO ESTAR FALANDO DE MIM, E QUANDO FALO PARA O OUTRO ESTOU FALANDO TAMBÉM DE MIM.QUANDO ESTAMOS NO PODER NÃO PODEMOS OLHAR APENAS PARA O NOSSO PRÓPRIO INTERESSE E SIM O INTERESSE DO NOSSO POVO.

  9. Carlos Anchova dezembro 24, 2008 às 1:10 am #

    O Foucault ainda vive? Porra ele deve estar bem véio hem!
    Na verdade eu conheci esse cara. Ele vendia cocada em Pernambuco

  10. Roberto março 23, 2009 às 7:41 pm #

    Gostei o teu resumo, enquanto exista a idéia centralizdora do poder, as sociedades e microssociedades serão talvez direcionadas pelas novas esferas da ciência que adquirem o controle e substituem paradigmas e dogmas religiosos

  11. samuel paulo março 25, 2009 às 12:34 pm #

    Olá. Bom sempre ouço esta questão do poder e a repetição do pensamento de Foucault que o poder não é posse de ninguém. Ora, como isto pode ser? no momento do exercício do poder, alguém está de posse dele não é. Ainda mais, se saber gera poder, então sempre quem possue o saber estara de posse do poder, enquanto este saber for útil.

    • Lindoberto Batista novembro 7, 2011 às 12:06 am #

      A ideia de Foucault é de que o poder não existe em quanto ser, ou seja, ela passa a existir a partir do momento em que nós o exercemos na relações sociais, por exemplo. E, segundo Fouault, tais relações não são apenas verticais, mas também horizontais ou seja, o operário, que muitas vezes, é oprimido pelo patrão, pode ser um opressor na sua casa, com sua esposa, por isso nós vivemos uma constante relação de poder.

    • Ju abril 1, 2012 às 4:33 pm #

      Ora o texto diz que o poder não é algo exclusivo de instituições, de governanças, mas sim de algo que se pratica, assim pode-se dizer que o poder é algo que se exerce, não sendo apenas de exclusividade de uma classe.

  12. elen junho 12, 2009 às 6:06 pm #

    qual é autoria de foucault?

  13. Gustavo Restier julho 1, 2009 às 3:44 am #

    Este livro é ótimo!
    Gostei de teu resumo.

  14. rosa julho 7, 2009 às 1:37 am #

    Ele era o cara mesmo, tenho muita dificuldade em entender sua obra. O texto acima foi muito esclarecedor.
    Parabéns! Sucesso na sua pesquisa.

  15. Márcio Fabian Guerra de Assis julho 9, 2009 às 1:00 am #

    Na verdade meu comentário assume mais a idéia de pergunta, pois tenho curiosidade de saber se entre os dois grandes planos de manifestação do poder, não existe um em que há uma relação entre o indivíduo e um determinado grupo social,pois pelo que pude perceber, as relações se dariam entre grupos e entre indivíduos. Desde já eu agradeço a resposta e espero ter surgido comuma dúvida real.

    • Angela M. M. Caetano abril 23, 2011 às 9:44 pm #

      “Estudar Foucault já é, em si mesmo, um acontecimento. Ele descreve seus textos como labirintos. Por que queremos, então, entrar neles? Sou graduanda em Filosofia – PUC GO – e estou começando o meu Projeto de Mestrado na Microfísica do Poder. Gostei da sua intenção de ñ só mencionar Foucault, mas principalmente colocar-se como reativa a valores que, talvez mereçam respostas, se não verdadeiras, pelo menos não tão cordatas ao “intolerável”. Parabéns. Abços, Angela

  16. Sandra agosto 23, 2009 às 4:54 am #

    O seu resumo veio em excepcional hora. Li o livro e confesso que ele não é de fácil compreensão, e seu texto ajudou-me muito.
    Obrigada
    Sandra

  17. Mena Sampaio dezembro 14, 2009 às 11:55 pm #

    É muito bom conhecer os pensamentos desse grande homem,pois tem nos ajudado a conhecer um pouco da nossa história.

  18. ANA MARIA abril 23, 2010 às 12:31 am #

    EXATAMENTE HOJE, EU INICIEI A MINHA LEITURA QUANTO AO Michel Foucault E ESPERO ENTENDER O QUE ELE ESCREVEU A CERCA DO PODER. O PODER EM UMA INSTIUIÇÃO PÚBLICA ME DEIXA INTRIGADA E GOSTARIA DE ENTENDER MAIS.
    ANA MARIA

  19. Cintya Dsnielly maio 1, 2010 às 4:27 pm #

    Gostei bastante da resenha. Ela me ajudou a compreender algumas idéias abordadas no texto a mocrofisica do poder.
    Estou concluido o curso de ciências sociais, ainda no primeiro semestre de 2010. E a monografia que me propuz a fazer é exatamente,sobre as relações de poder na concepção de Michel Foucault.
    PARABÉNS PELA INICIATIVA.

  20. Maria Fernanda Macedo setembro 2, 2010 às 2:06 am #

    Belo resumo. tb sou jornalista carioca e fico feliz em achr coleginhas que apreciem e apreendam Foucault assim. abs

  21. Raiane Lopes outubro 26, 2010 às 1:03 pm #

    Muito bom seu texto me fez compreender melhor essa obra, tao ampla e complexa.
    Muito bom!

  22. ftranchete novembro 22, 2010 às 4:22 pm #

    boas!
    não sei se alguém me pode ajudar,mas tenho um trabalho para fazer acerca da máquina abstracta.recomendaram-me ler parte do livro ‘microfísica do poder’, de foucoult,mas estou a ter algumas dificuldades na sua interpretação.se alguém me puder ajudar nesta matéria,ficarei agradecido.

  23. Maria Cecília fevereiro 20, 2011 às 12:46 am #

    Foi esclarecedor teu resumo. Bem básico!!
    Obrigada.

  24. solange alves do monte maio 27, 2011 às 8:00 am #

    Poder assume várias formas de gerenciamento. O agente ativo pode ter forma concreta (pessoalidade) ou forma abstrata (a perssoalidade fica diluída na forma institucional). O agente passivo estabelece relação direta com base cultural por 1. sedução: carisma, vaidade, status, ilusão de obtenção de vantagem, crença ou fé; 2. por medo; 3 por domínio ideologico ou escravidão mental; 4 pela ignorância se estabelece a relação dada entre poder e ciência. SEJA QUAL FOR A FORMA DO EXERCÍCIO O ÚNICO PADRÃO QUE SE REPETE SEJA QUAL FOR O CONCEITO de poder ADOTADO É A INTERFERÊNCIA NO LIVRE ARBÍTRIO DE OUTREM: A UNICA FORMA DE NÃO INTERFERENCIA É INFORMAR AS DIFERENTES FORMAS DE PENSAR OU TESES SOBRE DET, ASSUNTO E DEIXAR O OUTRO FAZER A SUA ESCOLHA CONCEITUAL com liberdade e reponsabilidade consciente sobre todos os seus atos.

  25. Helen Sabrina junho 8, 2011 às 12:09 am #

    muito bom, me ajudou bastante!

  26. elias julho 6, 2012 às 9:45 pm #

    “Se cria, assim, um discurso que se apresenta como “natural” e procura bloquear as possibilidades de aparição de outros discursos que tenham capacidade questionadora. ” Essa parte me lembra muito os discursos politicamente corretos dos dias atuais e o poder que os movimentos que se dizem defensores das “minorias” e de causas politicamente corretas (LGBTs, movimentos feministas, ONGs que dizem defender o meio-ambiente, índios, direitos humanos, etc) assumem cada vez mais nos governos e nas legislação dos países.

  27. Cristina Pereira. abril 25, 2013 às 5:43 pm #

    Seus pensamentos sobre esse autor são muito bons!
    Parabéns pelo seu Blog.

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